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Dimensões: 15,0x22,5 cm, 32p.
Edição: Dafne Editora
Data: Novembro de 2014
Preço: Gratuito
Design: João Guedes / Dobra
Agosto
Jorge Silva Melo e Pedro Maurício Borges


Pedro Maurício Borges O facto de [a casa] ser nos Açores é uma circunstância realmente importante. Estamos a falar de férias, mas o filme trata de férias de Verão. O Verão nos Açores, como penso que quase todos saberão, não tem esta suadeira sugerida no Agosto. Alterna no mesmo dia as quatro estações do ano, portanto não há propriamente

Verão, não há Agosto. Sendo que, ao mesmo tempo, há um ciclo de eventos, muito marcado pelo calendário religioso. Digamos que o Verão começa agora, com o Carnaval. A partir do Carnaval, os Açores estão em férias permanentes, estão sempre em festa. Este sempre em festa não distingue muito as férias. A não ser nos estudantes universitários; há a horda dos estudantes universitários que aparece no Verão. Se calhar, o calendário é dado pela sazonalidade da população estudantil, mais do que propriamente pelo clima. Provavelmente, isto dá uma arquitectura diferente. Menos solar, com menos terraços, mais abrigada, talvez.

Enfim, pelo menos naquilo que tenho feito. É engraçado ver neste filme o tempo que se passa nas varandas e nos terraços. Realmente, o tempo de férias, no Verão, é um tempo suspenso, é um tempo fora da realidade, é um mês fora da realidade. Os corpos andam mais lentos, tudo é mais vagaroso. Abrem‑se outras possibilidades de romance, de fantasia. Isso dá ocupação aos espaços que os arquitectos desenham para estar e que, na cidade, são inúteis. Ninguém passa férias em Lisboa, ou, se passa, passa as férias a trabalhar, ou a deambular. Este filme, quanto a mim, questiona as varandas urbanas. [RISOS]

...

Jorge Silva Melo Creio que o que me interessava no mundo dos amigos era o mundo dos nao‑pais. Não há pais; aqui, estas personagens não têm pais. Enquanto nas férias do João Bénard havia pais, avós, tios, primos, aqui não. Aqui o lugar é apenas dos amigos, com uma extravagante senhora mais velha que é a Glicínia. De resto, não há mais ninguém, são pessoas que se encontram ali, são os amigos que ali estão.

O que me interessa na ausência de paredes… As paredes são o teatro; portanto, se vou filmar, apetece‑me não fazer aquilo que consigo fazer no teatro, que são paredes e portas. A porta é uma das maldições do teatro. Não consigo fazer a elipse da personagem fora da porta e dentro de cena, tenho sempre de o ver a atravessar o palco e vir por ali fora, porque não consigo libertar o corpo. No cinema consigo. No cinema consigo não mostrar determinadas coisas que no teatro têm de se ver, estão ali à nossa frente, por muito que apague os projectores. Aqui, o que me interessava era exactamente o peso do corpo. O terraço daquela casa, parecido com o terraço do Mépris, que é a casa do Malaparte em Capri, é o peso dos corpos.

 

 


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