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Dimensões: 15,0x22,5 cm, 24p.
Edição: Dafne Editora
Data: Abril de 2014
Preço: Gratuito
Design: João Guedes / Dobra
Brandos Costumes
Seixas Santos e Nuno Teotónio Pereira


Nuno Teotónio Pereira …Este espaço que nos é mostrado neste filme do Seixas Santos é muito incisivo nesse aspecto, porque mostra de forma exaustiva o espaço interior da casa, o espaço doméstico. Repararam com certeza no facto de, praticamente, não haver exteriores, o que é uma coisa que não é normal no cinema. Tudo se passa dentro de casa, dentro das quatro paredes. Há ali um pequeno momento em que aparece uma rua, mas a rua nem se vê. Ve‑se o passeio, ve‑se a parede da casa e ve‑se a porta da casa. Há outro momento que se passa ao ar livre, mas é no logradouro da casa, no logradouro com os estendais de roupa e que é um prolongamento da casa – é murado, fechado, não é um espaço aberto. Isso é um dos aspectos interessantes deste filme, essa obsessão pelo espaço interior, pelo espaço doméstico interior. Acabamos por perguntar: «Quem é o protagonista deste filme?» Há as personagens que nós vemos falar, declamar, mas o grande protagonista deste filme são as portas. Há uma focagem intensíssima sobre as portas. E as portas estão fechadas, abrem‑se apenas o suficiente para deixarem passar uma pessoa, e logo se fecham. E há os grandes planos sobre as portas, os puxadores, as almofadas, os frisos das portas.

Alberto Seixas Santos Em primeiro lugar, pensei o filme como um conflito entre dois espaços antagónicos: um espaço íntimo, que se passa no interior da casa, e um espaço público, que deixei para os jornais das actualidades feitos durante a ditadura do Salazar. Portanto, de um lado, há a vida privada e, do outro, a vida pública, ou talvez mais exactamente a invenção de uma vida pública. …Trata‑se aqui das grandes encenações colectivas que aconteciam no Terreiro do Paço, ao qual, aliás, Salazar chamava explicitamente «os paços do poder», e onde fazia sempre os seus discursos centrais. Esse espaço foi o espaço que escolhi como um dos espaços centrais das actualidades, porque é aquele que reflecte melhor a evolução da história de Portugal segundo Salazar.

 


Nuno Teotónio Pereira, Bartolomeu Costa Cabral, Bloco das Águas Livres, Lisboa, 1953‑1955.

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