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Dimensões: 15,0x22,5 cm, 40p.
Data: Outubro de 2014
Preço: Gratuito
Design: João Guedes / Dobra
Longe da Vista
João Mário Grilo e Nuno Portas


Nuno Portas Lembro‑me de que, quando fazíamos «política de autores» do cinema, a maior parte dos autores de que gostávamos – não todos – era do cinema mais duro, retratos de tranches de vie, fosse do cinema negro americano, fosse do primeiro neo‑realismo italiano, fosse de uma parte do cinema negro francês. Depois, não sei se por compensação ou para irritar os críticos mais engagés, também defendíamos o cinema dos telefones brancos e o musical americano. Mas andávamos numa espécie de dualismo… O que têm em comum estas várias escolas ou tendências do cinema é o «álibi da realidade», que permite reconhecermos o espaço, a distância, através de uma coisa que, não por acaso, é a fotografia. Isto é diferente do teatro. O teatro não pretende convencer‑nos de que aquela casa é real; as casas são artifícios. O cenário do teatro, na maioria dos casos, é um cenário simbólico. O cenário, a mise‑en‑scene no cinema, no meu modo de ver, é diferente, joga com o verismo, que vem do Dziga Vertov e de outros, até hoje: o «com a verdade me enganas». 

Não sei se isto é muito ortodoxo ou se não é, só queria dizer que o filme do João Mário Grilo me convenceu, em grande parte, porque reconheci as distâncias, o grão da fotografia, o perceber a humidade que devia haver naquelas paredes. Ou outros factores: perceber, sem fazer grandes travellings a alta velocidade, o que eram aqueles corredores de Monsanto, em que as pessoas se deslocavam de um lado para outro, entre a cela e outros espaços de estar, como o refeitório ou o locutório. Ele não usa tanto o panóptico mas quase o contrário – são os corredores em que eles se deslocam.

João Mário Grilo Para mim, o mais importante comentário do cinema sobre a arquitectura é o princípio do The Searchers, a porta que se abre. É preciso dizer que o Ford reconstruiu num outro lugar a fachada da casa de Monument Valley, justamente para marcar o facto de no cinema e na arquitectura se fazerem coisas diferentes. The Searchers é um filme sobre isso, sobre o modo como a arquitectura gera coisas e sobre o modo como o cinema pode pensar a forma como a arquitectura as gera. Isto porquê? Porque está ligado, verdadeiramente, à noção de experiência. Há, seguramente, coisas interessantes sobre as quais a arquitectura deve reflectir a partir da noção de experiência que o cinema trabalha incessantemente, que é uma noção muito extensa da experiência. Tem a ver com o tempo, com o uso, com o trajecto, tem a ver com todos esses valores. Para um arquitecto é difícil. Não sei se a arquitectura tem modelos para pensar isto.

 


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