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Dimensões: 15,0x22,5 cm, 24p.
Edição: Dafne Editora
Data: Janeiro de 2015
Preço: Gratuito
Design: João Guedes / Dobra
Recordações da Casa Amarela
Margarida Gil, Manuela de Freitas, João Pedro Bénard da Costa e Joaquim Pinto


José Neves Parece‑me que o que o João César Monteiro fazia era pegar em clichés e dar uma espécie de cambalhota. Em relação a tudo, aos lugares, aos espaços, à arquitectura. Lembro‑me, por exemplo, do consultório e das texturas muito presentes e muito violentas: o cortinado atrás do médico, o estuque já gasto por trás da marquesa, o lençol – tudo filmado com um pudor enorme. Ou o corredor da pensão, as portas, a luz das bandeiras sobre as portas, a sombra da rapariga a pentear‑se… Ele pegava em coisas que todos reconhecemos, muito triviais, e juntava‑lhes outras coisas, provocando uma espécie de colisão. Por exemplo, quando o João de Deus vai ter com a mãe, a subir aquela escadaria em pedra, palaciana, ouve‑se o Stabat Mater do Vivaldi, a mãe está em cima a lavar o chão e ele está a meio a pedir‑ ‑lhe dinheiro. Ou a cena entre ele e o polícia que almoça feijoada na esquadra, em que o João de Deus despeja os bolsos, o polícia pega n’A Morte de Empédocles, do Hölderlin, e pergunta: «É um livro policial?»

Joaquim Pinto As Recordações da Casa Amarela, já se percebia no guião, é um filme onde as citações se casam completamente com a construção do filme, isto é, fazem parte do filme, não são um elemento estranho ao filme. Conhecendo os filmes do João César, acho que conseguiu integrar, citar o real e, ao mesmo tempo, integrá‑lo. É uma coisa que não é fácil. Foi algo que lhe causou muito sofrimento, e muito trabalho, de filme para filme, até encontrar, no meu entender, uma espécie de mestria nessa arte que é muito, muito complicada. Em relação aos décors, era um pouco a mesma coisa, era encontrar o ponto certo.

 

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