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Dimensões: 15,0x22,5 cm, 30p.
Edição: Dafne Editora
Data: Setembro de 2014
Preço: Gratuito
Design: João Guedes / Dobra
Tempos Difíceis
João Botelho e Raul Hestnes Ferreira


João Botelho Já não via este filme há algum tempo. Não desgostei de o ver outra vez. Queria dizer porque é que o fiz. Há um texto fundamental do Eisenstein sobre o Dickens2 que marcou este filme. Há pouco, o arquitecto Raul falou do Eisenstein e com razão. Nesse texto maravilhoso, disse que não foi o Griffith quem inventou o cinema, mas o Dickens. E cita precisamente este romance. Diz que nele estão todas as marcas da ideia do cinema, cinquenta anos antes de o cinema ser inventado como narrativa. Além de falar, por exemplo, de um capítulo acabar com um plano geral (como eu tentei fazer) e o capítulo seguinte começar com um grande plano; e cada personagem ter a sua característica bem definida; chegou ao ponto de dizer que há uma elipse, a elipse que é a figura de estilo que mais amo no cinema. Se vocês repararam, em 1/24 de segundo, e feito apenas com um lençol, passam‑se dez anos na vida da Cecília. Essa ideia é uma das coisas que o Eisenstein refere ter sido o Dickens a inventar, uma ideia narrativa diferente da do romance, uma forma de contar histórias com meios que anunciam o cinema.

Raul Hestnes Ferreira Tive a sorte de andar num liceu, o Gil Vicente, que era um antigo convento. Nunca andei numa escola melhor do que aquela. Havia a cerca do convento, passava‑se por cima daquele passadiço que ainda existe – por cima da Feira da Ladra –, havia grandes corredores, grandes escadas, era um mundo por explorar. Tenho a noção de que me marcou imenso ter andado naquela escola. Sabia por onde havia de fugir, havia umas escadas e uns corredores e, quando estava um bocado farto, conseguia fugir por ali. Havia um porteiro na entrada, por onde não se conseguia passar… Uma das preocupações que sempre tive foi criar escolas onde se pudesse sempre sair à vontade.

 


Raul Hestnes Ferreira, Tribunal da Moita, 1994

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