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Dimensões: 140p., 15,0x22,5 | 250g
Edição: Dafne Editora, Porto
Data: Outubro de 2003
DL: 202252/03
ISBN: 978-972-99019-2-8
Preço: Dez euros e nove cêntimos
Design: Gráficos do Futuro
Domingos Tavares
Balthasar Neumann
O Último arquitecto barroco


A arquitectura de Balthasar Neumann não representa a abertura de um novo caminho na história da arquitectura europeia, antes exprime uma síntese dos modos que foram sendo exploradas pelos precedentes autores do barroco da Europa Central. Competiu com a grandiosidade de Versailles nos palácios para os príncipes da Francónia, organizou a articulação dos espaços elípticos nas igrejas à maneira da sua Boémia natal, aplicou a lição renascentista nas composições em geometria simetrizada, explorou a articulação das formas nas mais largas paisagens, jogou com o cromatismo e a luz intensa na criação de atmosferas nos espaços interiores. Recorrendo a uma sabedoria construída na exploração das técnicas, trabalhou o projecto como obra de arte total, como se fosse pauta de música que não deixa margem para equívocos na sua execução. Gémeo espiritual de Juan Sebastian Bach, é mais um notável personagem da última expressão do barroco alemão com o encanto, o rigor e a sensibilidade compositiva que nos deixa suspensos perante o enigma da qualificação da arte.
Por isso elegi Neumann como o principal actor deste momento da arquitectura europeia. Chamei-lhe o último arquitecto barroco. É exagerada a afirmação que pretende tão só por em destaque um momento da história da arquitectura ocidental que, pela extrema intensidade com que trabalha os problemas do espaço na sua relação com os significados sociais que a suportam, anuncia o inevitavel passo seguinte de regresso à essência das formas manuseadas pela capacidade inventiva dos artistas. Ele representa toda uma geração que preencheu a primeira metade de setecentos no vasto território dos domínios da autoridade espiritual da igreja de Roma, que perdurou até à ascenção ao poder da burguesia saída da actividade comercial à escala dos oceanos da Terra.

Todo o ciclo clássico que se desenrolou na Europa consistiu numa importação da moda de fazer à italiana em geito de modelo fingido de "Roma antiga". Nas áreas do norte ditas germânicas ou saxónicas, foram-se viciando as formas do fazer gótico com a pimenta dos mercadores italianos que atravessavam o continente a partir do sul. Mas não há só fenómenos de viciação das culturas num único sentido. A infectação dos modos importados pelas sólidas práticas regionais condicionadas pelo valor intrínseco das permanências sócio-culturais, vai provocando as especificidades de cada maneira regional, que também funciona para a exportação e contaminação no sentido inverso. Foi o que aconteceu quando os criativos formaram a sua personalidade na lição clássica e no exemplo dos antigos, enquanto liam as experiências dos que ainda lhes estavam próximos. A sua base cultural não deixou de ser profundamente marcada pelos valores empíricos que persistiam no seio das suas comunidades e que, caminhando pelo inconsciente dos comportamentos e atitudes, veio a determinar uma parte substancial do estilo próprio, retirando uniformidade e coerência à importação do clássico.
Por outro lado a loucura fundamentalista dos contra-reformistas autoritários esbarrou muitas vezes com a vontade de rigor científico e o gosto pela criatividade serena de artistas que, aínda que fieis aos seus senhores e modestos na sua presunção, não abdicaram dos actos de inteligência para a produção da obra de arte. Por esse caminho, recusaram o apelo à irracionalidade instintiva, racionalizando o recurso aos modos perceptíveis do fazer. Este é também um aspecto pela qual a obra de Balthasar Neumann me parece não ser original, mas absolutamente exemplar. Ela representa a resistência subtil da atitude inteligente, estudiosa e interventiva que foi estando presente ao longo destes momentos de inovação temática em tempo de renascimentos clássicos. Com a delicadeza de quem cumpre os desígnios dos patronos e a força criativa pessoal capaz de deixar um rasto de beleza sensível no seu percurso de vida.

DOMINGOS TAVARES (Ovar, 1939) é arquitecto e Professor Emérito da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde ensinou desde 1985 a disciplina que deu origem às Sebentas de História da Arquitectura Moderna publicadas pela Dafne Editora desde 2003. Autor dos livros Da Rua Formosa à Firmeza (Faup, 1985) e Francisco Farinhas Realismo Moderno (Dafne, 2007).



Wurzburg, Santuário La Kappele.

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