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Dimensões: 12p., 15,0x22,5
Edição: Dafne Editora, Porto
Data: Abril de 2007
DL: 246357/06
ISBN: 1646-5253
Preço: Gratuito
Design: granja
André Tavares
As pernas não servem só para andar


Voltar a casa. Um momento decisivo da viagem é o regresso. A chegada. Pousar as malas, carregadas como um contingente pesado, reencontrar a cama moldada a preceito. O cheiro do Atlântico no caso da cidade do Porto.

Essa tranquilidade, o silêncio de casa, do seu espaço e dos objectos mil vezes reconhecidos, é o momento mais delicioso da viagem. O momento em que as inúmeras experiências insólitas, os momentos absurdos e inexplicáveis, são recordados num ápice. Nesse instante, os lugares transformam-se em imagens e recordações, o calor de facto transforma-se no esboço de um sorriso íntimo, os passos dados transformam-se em saber interpretar de novo, e usar, as tantas coisas arrecadadas no baú mental durante a viagem.

À recomendação didáctica da viagem de estudo: estejam atentos ao que vos for útil no regresso a casa, sobrepõe-se a desesperante condição em que tudo é útil. É por isso que os pés são essenciais à cabeça, porque o habitar/existir não tem lugar definido e toda a experiência desse habitar/existir precisa de pousar no chão, sentir a carícia da terra no pé descalço, a humidade do ar, o cheiro insuportável da camioneta durante as intermináveis horas de estrada em forma de pó. Tudo é físico. Inclusivamente o tempo. E isto não é novidade para ninguém. O que é mais absurdo é que a novidade não é novidade nenhuma.

[…]

Este texto foi inicialmente apresentado como candidatura ao Prémio Távora 2005, promovido pela Ordem dos Arquitectos, onde não foi premiado. Escrito em São Paulo recorda vários temas das aulas de Jacques Gubler, responde a uma provocação do Pedro Bandeira e retoma ideias das conversas de almoço com o Guilherme Wisnik.

ANDRÉ TAVARES (Porto, 1976) é arquitecto pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (2000), e autor dos livros Arquitectura antituberculose (Faup-publicações, 2005),Os Fantasmas de Serralves (Dafne, 2007), Novela Bufa do Ufanismo em Concreto (Dafne, 2009) e Duas obras de Januário Godinho em Ovar (Dafne, 2012). Foi director do Jornal Arquitectos (2013-2015) e, com Diogo Seixas Lopes, curador geral da Trienal de Arquitectura de Lisboa 2016.



– Tentativa n.º 11 –

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